Vacina covid-19: graves implicações éticas

2 Comentários
8522 Visualizações

A vacina contra o coronavírus produzida pela Universidade de Oxford já está sendo testada no Brasil, começando com 2 mil voluntários em São Paulo e mil no Rio de Janeiro. O Brasil é o primeiro país fora do Reino Unido escolhido para iniciar os testes para esta vacina (1). O que poucos sabem e pouco se fala é que esta vacina é produzida com células de linhagem de fetos abortados.

Dentre 130 vacinas que estão sendo produzidas contra o coronavírus, pelo menos 6 estão comprometidas eticamente, pelo mesmo motivo (2).

Para entender melhor: células de linhagem de fetos abortados são células obtidas através de cultura e multiplicação de células originais. No caso das linhagens fetais, foram retiradas células de bebês deliberadamente abortados algumas décadas atrás. Essas células foram cultivadas e repetidamente multiplicadas em laboratório, gerando uma fonte contínua de células humanas disponíveis para uso na indústria e em pesquisas científicas.

No caso particular das vacinas para coronavírus, as linhagens celulares são a HEK-293, linha celular renal que provém de um feto abortado por volta de 1972; e PER. C6, uma linha celular desenvolvida a partir de células da retina de um feto de 18 semanas abortado em 1985 (2).

Linhagens celulares provenientes de fetos abortados têm sido usadas para desenvolver também outras vacinas, contra adenovírus, rubéola, sarampo, caxumba, varicela zoster, poliomielite, hepatite A e raiva (4).

Questão ética

Alguns podem não ver mal algum na produção de vacinas decorrentes desse material – de acordo com a mentalidade “meus fins justificam meus meios”. Contudo, para o observador mais consciencioso, é possível ver o link decorrente do uso de partes do corpo de uma pessoa assassinada para produzir algo útil para terceiros.

Pode-se traçar uma linha reta desde o final da vida humana no aborto até uma vacina ou medicamento criado usando células derivadas da colheita do tecido fetal. Mesmo se as células forem propagadas há anos no laboratório, longe do aborto, essa linha de conexão permanece (3).

Argumentar que o aborto ocorreu há muito tempo e, por isso, não há mais problema moral, não é correto. Este pensamento simplista favorece o crescimento de pesquisas sem responsabilidade moral, afinal, “com o tempo está tudo certo mesmo”.

Outro argumento seria dizer que não são mais as células mesmas dos bebês abortados que estão sendo usadas, mas culturas das mesmas, logo, não há problema. Também é um argumento inconsistente. Como dito acima, são células humanas que remontam ao bebê abortado; além disto, o argumento não elimina a grave questão moral de fundo, a saber, que vidas foram sacrificadas propositalmente para serem exploradas.

Palavra da Igreja

A Igreja  tem dado alertas para a questão de produção de certas vacinas. O documento pontifício DIGNITAS PERSONAE faz uma análise ética da questão. O documento lembra que “o uso de embriões ou de fetos humanos como objeto de experimentação constitui um crime contra a sua dignidade de seres humanos, que têm direito ao mesmo respeito devido à criança já nascida e a qualquer pessoa”.

O mesmo documento lembra ainda, aos pesquisadores, a necessidade de evitar a cooperação com o mal e o escândalo. “O dever de recusar o referido «material biológico» – mesmo na ausência de uma relação próxima dos investigadores com as ações dos técnicos da procriação artificial ou com a dos que praticaram o aborto resulta do dever de se distanciar de um quadro legislativo gravemente injusto e de afirmar com clareza o valor da vida humana.”

No documento “Nova Carta aos Agentes de Saúde”, do Vaticano, a questão da vacinas produzidas com material de origem ilícita é abordada novamente, relembrando os apelos do Dignitas Personae: aos pesquisadores é pedido que se recusem a usar tais materiais e afirmem com clareza o valor da vida humana. A todos é pedido que peçam alternativas que sejam eticamente viáveis.

O uso destas vacinas, de uma forma ou de outra, gera problemas de consciência para quem as recebe e conhece sua linhagem, havendo a possibilidade de objeção de consciência por parte destas pessoas. Isso é ainda mais um problema para os formuladores de políticas, funcionários da saúde, cientistas, criadores e financiadores de produção de vacinas (3).

Como já afirmou o documento Dignitas Personae, “permanece firme o dever da parte de todos de manifestar o próprio desacordo em matéria e pedir que os sistemas sanitários disponibilizem outros tipos de vacina.” A nós cabe repudiar o uso destas vacinas e pressionar para que sejam trocadas por vacinas eticamente viáveis, pois estas opções existem e estão disponíveis.

A Pontifícia Academia pela Vida, em 2005, afirmou claramente que é “moralmente ilícito o desenvolvimento de vacinas a partir de tecidos de fetos abortados”. No entanto,  levando em conta certos critérios morais, “no que diz respeito às doenças contra as quais não existem vacinas alternativas disponíveis e eticamente aceitáveis, é correto abster-se de usá-las se isso puder ser feito sem causar às crianças e indiretamente à população como um todo, sofrer algum riscos significativos para à sua saúde. Contudo, se estes últimos forem expostos a perigos consideráveis ​​à sua saúde, as vacinas com problemas morais que lhes dizem respeito também podem ser usadas temporariamente.”(5) A mesma Academia, no documento citado, não deixa de lembrar, por várias vezes, a necessidade de exigir das autoridades uma vacina moralmente aceita.  Sobre o desenvolvimento específico de uma vacina para o caso do coronavírus, a Academia ainda não apresentou seu parecer.

Há saídas

É preciso reafirmar que há opções cientificamente promissoras e moralmente aceitáveis para esta e outras vacinas. O uso de células de bebês abortados não é a única saída. Ao contrário, como dito, a maioria das pesquisas em andamento para uma vacina contra o covid-19 não passa por esta opção imoral. Muitas fazem uso das células humanas, dos bebês, que podem ser retiradas do líquido amniótico.

Cristãos e pessoas de boa vontade não podem ver a ciência como uma área inquestionável da vida humana, sem responsabilidades éticas. Ao contrário, temos o direito e o dever de questionar ações científicas e exigir aquelas que prezam por princípios éticos inegociáveis (6), como é o caso do valor da vida desde a concepção até a morte natural. Se abdicarmos deste direito e dever de policiamento da ciência podemos esperar pelo aumento das ações que cada vez mais faltarão com o respeito aos direitos fundamentais, principalmente dos mais frágeis na sociedade.

É totalmente compreensível e necessário o esforço do governo brasileiro em buscar uma vacina para a população do país, em vista deste flagelo que vivemos. Todavia, lamentamos o fato que a escolha da vacina esteja sendo feita justamente sobre uma das poucas que usam células de bebês abortados, o que evidencia uma grave ausência de busca desta informação anteriormente a qualquer acordo com os produtores da mesma por parte de nossas autoridades ou, o que é ainda pior, o desprezo pelo tema moral, sem levar em conta que somos um povo majoritariamente cristão e com forte posicionamento pela vida, respeitando-a desde a concepção.

Referências

  1. Testes com vacina de Oxford contra covid-19 começam em São Paulo. Agência Brasil. 23/06/2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-06/testes-com-vacina-de-oxford-contra-covid-19-comecam-em-sao-paulo
  2. Apenas 6 entre 130 vacinas contra Covid-19 usam linhas celulares fetais, informa estudo. Derosa, C. Estudos Nacionais. 22/07/2020. Disponível em: https://www.estudosnacionais.com/27008/apenas-6-entre-130-vacinas-contra-covid-19-usam-linhas-celulares-fetais-informa-estudo/.
  3. Na ethics assessment of covid-19 vaccine programs. Sherley, J; Prentice, D. Charlotte Lozier Institute. 19/06/2020. Disponível em: https://lozierinstitute.org/an-ethics-assessment-of-covid-19-vaccine-programs/
  4. Bioethics groups warn against covid-19 vaccine made from aborted fetuses. Swan, M. Grandin Media. 20/05/2020. Disponível em: https://grandinmedia.ca/bioethics-groups-warn-against-covid-19-vaccine-made-from-aborted-fetuses/
  5. Pontifical Academy for Life Statement: Moral Reflections on Vaccines Prepared from Cells Derived from Aborted Human Foetuses. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6699053/
  6. “Portanto, médicos e pais de famílias têm o dever de recorrer a vacinas alternativas13 (se elas existirem), pressionando as autoridades políticas e os sistemas de saúde para que outras vacinas sem problemas morais se tornem disponíveis.”Pontificia Academia para a Vida. Pontifical Academy for Life Statement: Moral Reflections on Vaccines Prepared from Cells Derived from Aborted Human Foetuses. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6699053/

OS SANTOS INOCENTES E A ATUAL CULTURA DA MORTE

Comemoramos, neste dia 28 de dezembro, a festa dos Santos...

Foram só algumas horas, mas eu não conseguia imaginar continuar a minha vida...

Meu nome é N., tenho 45 anos, me separei recentemente....

Deixe seu comentário